
Edição: Woe To The Septic Heart! CD, LP, digital
Music for the Quiet Hour ( Part One )
Em meados de 2011, no intervalo da produção de seus últimos trabalhos, Sam Shackleton participou com o escritor Vengeance Tenfold (ou Earl Fontainelle) de uma empreitada que envolvia de modo particular o conceito de “paisagem sonora”. O projeto Sonic Journey, apoiado pelo SoundUK, encomendou ao produtor inglês, estabelecido em Berlim, uma trilha-sonora composta por duas faixas que interagissem respectivamente com o trajeto de duas linhas ferroviárias de Devon: a Tarka Line, no norte do condado, e a Great Western Mainline que segue o curso do mar no chamado Exe Estuary. O resultado, como o leitor pode averiguar no link acima, contrasta com a polirritmia techno-industrial tingida por sintetizadores ambient e ruídos orgânicos, característico dos EPs “Deadman” e “Fireworks” e da parceria com Pinch, cuja particularidade se mantém mesmo se nos valermos de justas comparações com as texturizações pluriculturais de artistas e projetos como Muslimgauze, Coil ou The Anti Group, entre outros. Porém, não seria exagero atribuir a essas duas composições o gene dramático que persiste na fascinante experiência de percorrer com fones de ouvido todos os sessenta e cinco minutos de Music for the Quiet Hour: pois trata-se de uma obra ligada sobremaneira à palavra “viagem”…
Lançado em abril deste ano, este autêntico tour de force ocupa um CD inteiro, compondo uma caixa suntuosa que ainda conta com The Drawbar Organ, trilogia de EP’s de 12” e um livreto ilustrado pelas formas espasmódicas criadas pelo inglês Zeke Clough. Music for the Quiet Hour remete às noções de “viagem”, “deslocamento”, seja geográfico, seja mental, mas tambem deriva da parceria com as palavras e a voz monocórdia de Tenfold (que já havia participado de “Death is Not Final”) e a noção de “paisagem sonora”, que atinge um outro patamar nesta peça. Adapatado às longas durações, Shackleton desdobra vertiginosamente sua paleta de sons em uma imensidão de artifícios, demonstrando fôlego e engenho para experimentar em cada uma das “danças” com uma imensa variedade de timbres, texturas, climas, gêneros e demais dispositivos — muitos deles inéditos em sua obra, a exemplo da chiadeira noise que toma a segunda parte lá pelos cinco minutos. Não há dúvida de que Shackleton elaborou esta que pode ser considerada sua obra-prima a partir da experiência de Devon, desta vez convidando o ouvinte a repor mentalmente a motivação visual propiciada pela viagem ferroviária.
Composta em cinco movimentos, Music for the Quiet Hour organiza sua estrutura de forma semelhante a de uma suíte clássica, com quatro movimentos e uma introdução, cada uma trazendo uma série mudanças e remissões internas — quando, por exemplo, alguma melodia faz intercâmbio entre as diversas partes, como a que é executada com algo semelhante a uma “buzina de bicicleta” na parte dois e repetida na parte três. Como declarou em entrevista recente, Shackleton não usa patterns eletrônicos e escreve cada uma das seções da composição no computador, fator que incide diretamente sobre a complexidade da beats, texturas e tramas percussivas. É possível listar uma infinidade de timbres que se entrelaçam nos cinco movimentos, desde flautas andinas, tubos percutidos, sons naturais modificados eletronicamente (ondas do mar, tempestades, avalanches, pássaros), sons digitais e analógicos com as mais diversas características, orgânicos e inorgânicos, pianos, teclados, vozes alteradas e sequenciadas, efeitos os mais diversos — detectei até o som de uma tevê sintonizando. Há, portanto, mais do que um virtuosismo, mas um movimento criativo capaz de explorar inesgotavelmente seu próprio repertório e, mais que isso, de organizá-lo em pequenas composições coerentes e articuladas entre si. Como por exemplo, nos primeiros minutos da quarta parte, a maior de todas, quando Shackleton confere ritmo às sílabas emitidas pela voz que repete o mantra metafísico “It is”. E como explicar/nomear/descrever em palavras a síntese de voz, cítara e cello que descreve a melodia que finaliza a parte quatro?
Tais características inomináveis da música de Shackleton nos levam a compreender que ele segue rigorosamente uma das platitudes da música contemporânea: a ampliação do espectro sonoro, a busca por sonoridades que nunca foram escutadas. Mas, ao contrário de artistas irascíveis como Hecker e Merzbow, que conduzem o ouvinte ao limite do corpo pela violentação dos sentidos, as intenções de Shackleton se depositam sobre o ritmo e sua benevolência concreta. Ao estender este pressuposto estético à dança, uma dimensão simultaneamente corpórea e imaginativa, disponibilizando a gama de signos que ignora a procedência “étnica” (e mesmo desprezando o etnocentrismo da palavra “étnico”), Shackleton indica, para além de mais uma distopia bélica, o caráter de permanente resistência embutido no mundo que encena. É o que enuncia a voz robótica de Tenfold, quando recita um texto iniciado pela célebre frase do incendiário Fela Kuti: “Music is the weapon of the future, turn off your computer. The rhythm is electronic system subverter, reality is clearer”. A convocação para o ambiente da rua (“desligue o seu computador”) e da dança (responsável por “subverter o sistema eletrônico”), com certeza não é meramente existencial, mas político.
Anterior a qualquer possibilidade de análise de cunho estrutural, o que mais impressiona nesta suíte é a forma como o autor desenvolve em todos os movimentos a relação entre o som e a evocação, derivada unicamente da tensão imagética com a qual a dupla lidou no projeto em Devon. Não parece incomum que essa música suscite na maioria dos ouvintes a sensação da “paisagem”, sempre em relação a uma sonoridade (uma marimba, um sintetizador, um som inaudito, uma voz) que aciona o dispositivo visual e alça a imaginação a uma determinada ambientação imagética. Assim, a “hora tranquila” a que o título se refere não diz respeito propriamente ao sentimento que a música pretende transmitir, mas à necessária ampliação de sua experiência. Que o ouvinte permita a si mesmo deslocar-se a uma experiência limítrofe, desafiando a velocidade com que se produz e consome cultura no cenário musical como um todo. Pois é a partir justamente da capacidade de nos transportar a um outro universo — não só em relação às referências “multiculturais”, mas em oposição ao culto da celebridade e da personalidade — que a obra de Shackleton nos impressiona, e, particularmente, em Music for the Quiet Hour.
Bernardo Oliveira