
Edição: Woe To The Septic Heart! CD, LP, digital
Test Tubes
Longe vão os tempos da Skull Disco, a editora especializada em dubstep e fundada em Londres, em meados de 2005, por Sam Shackleton e Laurie “Appleblim” Osborne. Aliás, a Skull Disco fechou as portas em 2008 e o dubstep fragmentou-se de tal forma que os respectivos cacos têm sido colados num “cadavre exquis” que dá pelo nome de bass music. Ao passo que Appleblim se manteve relativamente dentro da esfera do dubstep, com maiores ou menores derivações, procurando noutros companheiros (sem grande sucesso, exceptuando as experiências com Peverelist) a sintonia criativa que conseguiu alcançar com Shackleton, este último mudou-se para Berlim e deixou-se contagiar por novas linguagens sonoras que viriam a desembocar no sublime “Three EPs” (Perlon, 2009).
Se já era difícil catalogar a música de Shackleton, desde então que se tornou uma missão impossível e, de resto, escusada. Seguiu-se a colaboração com Pinch, na Honest Jon’s, resultando num disco que voltou a baralhar os dados quando se apontava para um putativo retorno aos velhos tempos da ascensão do dubstep (os tempos de uma outra dupla formada com Appleblim). Shackleton recusou a facilidade do pós-dubstep e seguiu um caminho próprio de música experimental e abstracta, física mas sobretudo cerebral, pendulando entre o dubstep e a bass music, o techno e o dub, o minimalismo e o tribalismo, Moritz Von Oswald Trio (ou Basic Channel) e Ricardo Villalobos,
Em “The Drawbar Organ Eps”, uma das partes que compõem a monumental caixa acabada de lançar pela Woe To The Septic Heart! (nova editora fundada e gerida pelo próprio Sam Shackleton), há como que uma aproximação à vertente mais atmosférica e minimal da sua música. A peça central das 10 faixas consiste num órgão eléctrico que adquiriu na altura em que estava a produzir “Three EPs”, daí o título escolhido. Tudo o resto, das partículas electrónicas às vocalizações tribais, das texturas de field-recording ao psicadelismo e ao ambientalismo ou minimalismo, parece gravitar em torno das linhas ora melódicas ora atonais do órgão, a camada sonora mais preponderante (com muitos pontos de contacto com a obra subliminar de Steve Reich).
Sam Shackleton distingue-se enquanto músico que recusa fazer qualquer compromisso ou concessão a géneros, muito menos colocar-se em algum ponto do mercado. Segue um caminho próprio, em busca de uma linguagem nova, ou no mínimo original. “The Drawbar Organ EPs” não é o melhor pedaço de música da caixa, mas contém momentos de superação sensorial, sobretudo nas faixas mais atmosféricas e abstractas, como “It Is Not Easy” ou “There Is A Place For Us” (que encerram as hostilidades), precisamente quando mais se aproxima da órbita de Steve Reich. De resto, quando envereda por uma maior fisicalidade, a música de dança propriamente dita (dubstep, pós-dubstep, bass music, como preferirem), torna-se mais enfadonho porque acaba por se repetir. O fim de um capítulo e, em simultâneo, o início de um novo.
Gustavo Sampaio