
Edição: Honest Jon’s CD, 2xLP, digital
Yangissa
A união de Moritz Von Oswald (Basic Channel, Rhythm & Sound) com Sasu Ripatti (Vladislav Delay, Luomo) e Max Loderbauer (Sun Electric, nsi.) rendeu até agora três trabalhos de primeira linha, dentro de um contexto de improvisação, esculpida porém de forma atenta e rigorosa. O aparente contrasenso se explica, pois não é qualquer som que entra no tableau vivant de Oswald. Inclusive, se Fetch precisasse de um subtítulo, eu poderia sugerir ironicamente: Directions in Music By Moritz Von Oswald, em alusão à uma das tantas obras-primas de Miles Davis, Bitches Brew. Pois Davis é recorrentemente lembrado durante os cinquenta minutos deste belíssimo trabalho, talvez o mais expressivo do trio até agora. Não somente pela inclusão do trumpete de Sebastian Studnitzky, artista do selo ECM, ou da linha de baixo de “Jam”, semelhante a que conduz “Miles runs the voodoo down”. O que soa evidente durante a audição do disco diz respeito à estrutura da improvisação, completamente direcionada por Oswald e sua capacidade de transfigurar sons e tendências mais óbvias. O tema é o mesmo, mas como explicar os sons, que são outros?
E são outros por conta, sobretudo, de uma modficação considerável na escalação dos músicos, com o acréscimo de três reforços: além do trumpete de Studnitzky, Jonas Schoen no saxofone, clarinete baixo e flauta, Marc Muellbauer no baixo (que já havia participado em 2010 de “Restructure 2”) e os efeitos de Tobias Freund, que também desempenhou a tarefa de gravar e mixar o disco. Completando a “orquestra”, a percussão (ou os “objetos de outro mundo”) de Sasu Ripatti, o sintetizador de Max Loderbauer e o piano elétrico de Oswald. A tarefa, determinada pelo timoneiro Oswald, é a mesma dos álbuns anteriores, qual seja, improvisar de forma “jazzística” não apenas com melodias, harmonias e ritmos, mas também com frequências, volumes, samplers e o que mais estiver ao alcance dos músicos.
Como notei acima, esta liberdade não se confunde com falta de critério. Ao contrário, parece redobrá-los, como se pode apreciar nas intervenções em “Jam”. No fone se percebe melhor o engenho secreto com que Moritz e Schoen distribuem espacialmente esses sons, criando articulações que escapam à audição direta, nas caixas de som. Por outro lado, o que se ouve à primeira vista é o entrelaçamento inteligente de sintetizadores, glitches, percussões, melodias, etc, executadas por um trumpete longínquo, apresentados em diversos volumes e intensidades. “Jam” culmina nos gemidos de roldana e no ruído silencioso de alguma máquina em funcionamento, até penetrar pela faixa seguinte, “Dark, doando-lhe a mesma compleição sonora. Mas desta vez, o ritmo vem do reggae e uma sonoridade densa preenche o ambiente, com a inclusão de percussões pontuais, sintetizadores ostensivos e algo como uma estação de rádio em baixo volume, no canal esquerdo. É de longe a faixa mais viajante (e “canábica”) do trabalho, a lembrar o pioneirismo do Rhythm & Sound.
Representando a ala Basic Channell (!), “Club” assume uma roupagem techno, e, mais uma vez, aposta na dinâmica de inclusão que caracteriza o trabalho do trio, com destaque para a balbúrdia promovida por algo como uma percussão de vidro ou louça. Mas o melhor do disco ainda está por vir. Interpretando com sequenciadores a batida do lenzenko, tambor utilizado pelos pigmeus Aka em seu canto ao mesmo tempo polifônico e minimalista, a base rítmica de “Yangissa” soa de maneira ligeiramente “amontoada”, mas se casa perfeitamente com a placidez do naipe de metais, que aludem curiosamente ao clássico “Milestones”. Pode-se inscrever a faixa na vertente que vem aproximando música eletrônica e ritmos africanos (com Falty DL e Mark Ernestus, por exemplo), mas é impossível não notar a reviravolta aos dez minutos, a partir da qual “Yangissa” se torna uma espécie suave de industrial. Eis, inclusive, uma boa fórmula para o trabalho deste trio, que chega ao quarto disco queimando lenha: industrial suave, música de máquinas interpretada por corações quentes.
Bernardo Oliveira