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Fennesz: Seven Stars


Edição: Touch


July

“O devir da imagem é o devir da luz”: a frase me vem à cabeça no exato momento em que o violão ultrapreparado de Christian Fennesz emite seu primeiro acorde em “Liminal”, primeira faixa do seu novo EP, “Seven Stars” (o lançamento em CD está previsto para setembro). Poética e misteriosa, a sentença do cineasta brasileiro Julio Bressane escapa à alegoria porque privilegia um registro “técnico” de primeira ordem. Ela expõe a materialidade da representação cinematográfica, buscando sua poesia no clangor total do universo, e não na tentativa de representação antropomórfica. Trata-se do domínio da terra e dos corpos, nada tem a ver com dramas psicológicos e comédias ligeiras.

Diante de “Seven Stars”, pode-se supor que esse pensamento persiste estreitamente ligado à música de Fennesz. Não somente porque ele não investe na canção, ou porque intervém no próprio corpo do instrumento – a partir de um procedimento inventado por John Cage na série de estudos para “piano preparado” – mas, sobretudo, porque sua música incorpora o aspecto telúrico à própria composição. Elaborada por diversas camadas de som sobrepostas, as peças de Fennesz ressoam uma rica geologia sonora, em diálogo intenso com o silêncio e com aquele conjunto de sons que foram classificados pelo vago nome de “música” – vale notar que o autor é um exímio guitarrista, como se pode conferir de forma mais evidente nos acordes de violão que pontuam “Black Sea”, faixa de abertura do álbum homônimo.

“Seven Stars” coloca essa questão por um viés curioso. Não se pode afirmar que o esqueleto conceitual que sustenta suas quatro faixas (excluindo o remix “Reshift”) é de todo desconhecido. Com esmero, elas reiteram muitas das mais interessantes inflexões musicais de Fennesz: a forma eficaz e evocativa como combina sons deteriorados com uma melodia quase sentimental; a repetição da melodia como forma de expor a dinâmica movediça das texturas sonoras; e, sobretudo, a capacidade de criar diálogos peculiares entre sons considerados musicais e não-musicais.

Porém, se em Black Sea, faixas como “Perfume for Winter” e “Glass Ceiling” acrescentaram contribuições decisivas em relação à sonoridade dos discos anteriores – principalmente em “Endless Summer” e “Venice” –, em “Seven Stars” a novidade ficou por conta do momento aparentemente mais “convencional” da carreira de Fennesz: a faixa-título. A bateria em compasso marcado, sob a melodia tensionada por timbres abrasivos, leva a crer que se trata da primeira inclinação de Fennesz a uma linguagem mais palatável.

Mas nem tudo são favas contadas. Na curva de sua discografia, os sons mais rascantes e repetitivos, presentes sobretudo em “Hotel Paral.lel”, foram se transformando por obra de um equilíbrio entre sons familiares (melodias com guitarras e sintetizadores) e o domínio irascível do noise. Ou, se me permitem, por uma desarmoniosa harmonia, igualmente presente nas eclosões sombrias e delicadas de “July”, na melodia nostálgica e imprecisa de “Liminal”, no drone macio em “Shift” e até mesmo na folktronica pastoral de “Seven stars”.

“Seven stars” não deveria causar estranhamento, mesmo aos fãs mais ortodoxos. Trata-se de uma abertura, comparável, por exemplo, a “Massage The History”, suave e violeira balada do barulhento Sonic Youth (do disco “The Eternal”). A poética da música de Fennesz reside na fricção entre a cultura e o inominável, de modo que “Seven Stars” permanece estritamente no âmbito da obra. Como no cinema de Bressane*, sua arte busca aplainar a cultura, a natureza, o homem e o universo em uma mesma dimensão, sem, no entanto, suprimir seus desacordos e conflitos. Cabe inclusive uma bateria soft jazz, que em nada compromete a sensação de que uma sonoridade estranha, suave e luminosa, preenche todo o ambiente.

Bernardo Oliveira

 

* …e na obra do inspirador da frase, o cineasta Abel Gance, que teria dito: “O cinema é a música da luz.” Bressane por sua vez, escreveu: “O cinema é a música da luz, disse, poeticamente o sensível Abel Gance. Retomando a metáfora, diz Bresson: ‘podemos fazer cinema com colcheias e semicolcheias, porque cinema é música’” (BRESSANE, Júlio. O Homem dos Olhos Doces. In: Cinemancia. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 2000, p. 225-26)

 

 

 

 

 

 

 

 

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