

Edição: No Pain In Pop LP, CD, digital
Este ano viu emergir uma fragmentação particular dos gêneros e das possibilidades de releitura circunscritas ao universo sonoro eletrônico. GLAQJO XAACSSO (pronuncia-se “glack-geut zack-so”), primeiro álbum do produtor inglês patten, traça um recorte particular sobre esta ampla gama de possibilidades, representando como nenhum outro a pluralidade acentuada de 2011. Um passo atrás e percebemos que patten nem sempre investiu na eletrônica pesada. There Were Horizons, seu primeiro trabalho de carreira, contava com dezessete composições para violão, de um minimalismo concentrado, que beirava a singeleza. De que planeta vem o misterioso patten – sobre o qual nada ou pouco sabemos?
Sem a preocupação de animar as pistas de dança, mas se valendo de um expediente plenamente afinado com seu universo de timbres e batidas, patten construiu uma peça monolítica, fechada em si mesma, mas que dispõe de muitas portas de entrada. Não se trata de um disco inscrito na onda de Bristol, como o chiptune de Joker; nem do dubstep sombrio de Burial, Kode9, nem das infusões londrinas criadas por Deadboy e Boddika; muito menos na ponte EUA/Inglaterra, seja pela via das “batidas críticas” (Brainfeeder, FaltyDL), nem pela via do Juke (Machinedrum, Africa Hitech). Talvez pudéssemos aproximá-lo dos primeiros singles do londrino Blue Daisy. Mas, ao contrário deste último, patten parece disposto a investir mais no atacado do que no varejo, pois suas composições exigem tempo e espaço para revelar sua expressão sonora.
Certo é que não basta elencar as sonoridades e respectivas referências para julgar a qualidade do trabalho, sem levar em conta, por exemplo, o caráter bricoleur da composição. Neste sentido, eis aqui o trabalho de um autêntico “catador de latas”. Pode-se até afirmar que não há grandes novidades, pelo menos em termos timbrísticos. Mas o trunfo do disco reside na forma como o autor condensou algumas vertentes musicais contemporâneas, convertendo-as em peças do seu próprio universo sonoro.
Em “GLAQJO XAACSSO”, primeiramente, patten trabalha muito com seus filtros de compressão e efeitos, criando texturas a partir do ajuste de variadas fontes sonoras. Ao invés de compor verticalmente (como nos processos de composição linear – partituras e execuções ao vivo), ou horizontalmente (como nos processos de composição não-linear, realizadas nos programa de edição digital), se utiliza de dois métodos para estimular a sensação de “profundidade”, camadas de som que, alternando seus volumes, se entrelaçam na duração da composição.
Este procedimento pode ser avaliado mais adequadamente na FACT Mix 285, já que o autor se utiliza de faixas que todos conhecem. A oscilação dos volumes trabalha para compor texturas, que se alternam entre as faixas e, muitas vezes, dentro delas. A mixtape demonstra que a manipulação por compressão e aplicação de efeitos é mais do que uma experiência, mas uma forma de expressão própria do autor. O tratamento dado ao clássico dos Pixies, “Bone Machine”, logo no início, reitera o procedimento descrito acima. Esta característica perpassa todas as faixas do álbum.
Ao lado dela, o formato delirante e colorido das composições, repletas de reviravoltas, deixa explícita a verve iconoclasta do autor. Exemplos? Com seus vocais que vem e vão, a descompassada “Out the Coast”, “Fire Dream”, “Word Collided” e “Blush Mosaic”, para começar. Em cada uma de suas doze faixas, uma experiência anômala com o ritmo, com a timbragem, com a mixagem e o tratamento final.
Embora não disponha da virulência de Passed Me By, nem do vigor eloquente de Room(s), estamos diante de um trabalho que se equilibra entre múltiplos interesses, intervenções minuciosas e uma improvável inclinação para a experimentação. Mostrei a um amigo e lhe perguntei: como você classificaria essa música? Entre pasmo e interessado, ele exclamou, sem pestanejar: “liquidificasound’s trashlike usualthangzzzzz…” Depois das risadas, a fórmula me pareceu bastante conveniente.
Bernardo Oliveira