
Edição: Southern Lord
“Father midnight”
Será que ainda pairam dúvidas quanto à peculiaridade dos Earth no cenário do rock contemporâneo? Goste-se ou não, qualquer lançamento do quarteto é digno da mais acurada atenção. Não somente pelo alto teor de renovação que demarca as diversas fases da sua existência, como pela auspiciosa teia de colaborações com Melvins ou Sunn O))), entre outros.
O que distingue o seu trabalho é a austeridade com que criaram suas diversas máscaras. A particularidade do grupo deve ser medida pela força e rigor com os quais essas mudanças se processaram em sua música. Pode-se até afirmar que o momento mais desafiador dos Earth se localiza no drone radical dos primórdios. Levando em consideração o trabalho iniciado na década passada – influenciado pelo blues, country e jazz – o novo álbum encerra um dos pontos altos da curta mas consistente discografia do grupo.
As composições se caracterizam novamente por uma dinâmica lenta e cadenciada, que favorece a exploração da duração, seja ralentando a instrumentação, seja preenchendo os compassos com convenções rítmicas – como na etérea “Descent to Zenith”. Uma outra característica relevante é a sonoridade das guitarras, que alternam distorção agressiva, como em “Hell Winter”, com nuances mais delicadas, presentes nos vinte minutos da faixa-título.
Ou ainda a utilização estratégica dos trechos mais silenciosos, sublinhando os variados matizes da bateria (sobretudo o timbre feérico dos pratos) e o rico diálogo entre guitarras e contrabaixo. Sem contar o charme bluesy de “Old black” e “Father midnight”, as mais representativas da fase atual do grupo.
Essas características criam uma atmosfera desoladoramente ambígua, ora traduzindo uma tensão própria do rock, ora reivindicando ao ouvinte um estado de espírito mais brando e concentrado. Ambiguidade esta confirmada pela imagem antagônica descrita no título do álbum: signos de luz e escuridão que se alternam em seus respectivos domínios, que se degladiam e expõem um processo de construção sonora dos mais interessantes no rock da atualidade.
Bernardo Oliveira