
Edição: Modern Love LP, digital
We Stay Together (Part One)
Passaram-se cinco anos entre o lançamento do primeiro álbum de Andy Stott e os que foram lançados este ano, respectivamente o segundo e o terceiro. Cinco anos separam o tech-house, com toques de IDM e dubstep, em Merciless, das construções sibilinas de Passed Me By e We Stay Together. Tempo suficiente para que o artista lançasse alguns 12”, arriscando-se em diversíssimas searas, como dub techno, house, minimal e, é claro, dubstep.
Neste percurso, ocorre que Stott reformulou todo o seu trabalho, a ponto de aparecer quase que “descaracterizado” de seus atributos mais evidentes. A diversidade foi substituída por uma gramática própria, efetivada pela valorização radical do grave, pela transformação de elementos do dub techno, pelo ambiente timbrístico esfumaçado e pela construção de uma relação simbiótica entre o ritmo e a harmonia – não parece exagero afirmar que essas categorias se embaralham de forma muito particular em Passed Me By.
Pessoalmente, este disco já seria suficiente para increvê-lo entre os produtores mais interessantes da atualidade. Foi então que apareceu We Stay Together. Outra capa enigmática emoldurando seis faixas dentro de uma sonoridade difícil de definir, mas que condensa elementos de todas as vertentes que listei acima. E, no entanto, trata-se de outro trabalho, o que fica perceptível logo na primeira faixa: névoas de sintetizadores compõem a aparência ambient de “Submission”, deixando claro que estamos pisando em outras regiões de um mesmo território.
Na sequência, duas faixas que compatilham com Passed Me By o andamento largo, o grave com aparência de lo-fi e a batida techno, mas que investem em modificações muito sutis sobre a sequência de compassos repetidos. No caso de “Posers”, vamos da percussão e da harmonia encorpadas, até vozes fantasmagóricas que conferem nuances agudas em um panorama saturado de graves. Já “Bad Wires” aposta na repetição massiva e em detalhes executados por uma percussão semelhante a um repique, conservando, no entanto, o aspecto sombrio – destaque para a intrigante redução do pitch no final da faixa.
A faixa-título talvez seja a faixa mais interessante de todo o trabalho. A começar pelo indicativo de que se trata da primeira parte de uma outra faixa que, pelo visto, está por vir. Mas, em termos gerais, “We Stay Together (Part One)” é a que mais destoa da sonoridade desenvolvida por Stott: dub-techno arrastado e revestido por uma roupagem lo-fi, mas que, ao contrário das demais, parece conservar o espaço para cada um de seus elementos, sem a habitual aglutinação sonora que define seu trabalho.
“Cherry Eye” e “Cracked” encerram o disco, trazendo mais duas incursões ao território dos graves e da repetição, reforçando a tal gramática rigorosa que define a música de Stott nesta década. Como observei na crítica para Passed Me By, uma das características anteriores de sua música era a versatilidade com que se movia de um gênero a outro, sem prejuízo do aspecto dançante. Para a nossa sorte, isso vem mudando: Stott vem depurando o caráter experimental de sua produção, transformando-a em um exemplar raro no panorama da música eletrônica atual.
Bernardo Oliveira