
Edição: Honest Jon’s CD, 2xLP
Caves of Paradise
Darren J. Cunningham estava talhado para uma promissora carreira de futebolista profissional no clube inglês West Bromwich Albion (WBA) até que uma lesão grave o levou a desistir aos 19 anos de idade. “Uma decisão esmagadora de se tomar”, confessa. Em alternativa fundou um clube nocturno (Werk) em Londres, com Bem Casey e Gavin Weale, mais tarde acrescido de uma editora discográfica (Werk Discs), através da qual lançou os primeiros 12’’ (“No Tricks”, 2004) e LP (“Hazyville”, 2008) de Actress, o alter-ego criativo nos campos (passe a analogia futebolística) da música de fusão electrónica.
Para além de Actress, a Werk Discs editou discos de Lukid, Lone, Starkey ou Zomby. Ao segundo LP (“Splazsh”, 2010), Actress transferiu-se para a Honest Jon’s de Damon Albarn e companhia, acabando por ser distinguido como o melhor álbum do ano para a revista “Wire”. Entretanto participou também no projecto DRC Music juntamente com Albarn, Dan The Automator, entre muitos outros.
Partindo das fundações do techno de Detroit e da house de Chicago, a música de Actress desenvolve-se em camadas e colagens de outros (diversos) elementos sonoros, fragmentando as batidas (na senda do broken beat, UK garage, dubstep, enfim, da bass music britânica em geral) ou camuflando-as sob texturas alienígenas, um denso manto de partículas electrónicas que se tornou ainda mais atmosférico e misterioso no terceiro LP (“R.I.P.”, 2012), acabado de surgir com o selo da Honest Jon’s.
Um disco mais ousado, ambicioso e complexo do que “Splazsh”, na medida em que parece afastar-se da pista de dança, uma tendência sugerida nos capítulos anteriores mas exponenciada na ausência de batidas em grande parte das faixas de “R.I.P.” (ou melhor, na diluição das batidas). Tal como em “Subterranean” (Steadfast, 2011), não deixa de ser frustrante a espera por uma ritmagem mais directa e abrasiva, prenunciada pelos elementos ambientais que vão sendo elevados até à superfície, camada sobre camada. Resta por isso a sensação de desconexão: ouvir techno com o nível dos graves apagado, não por lapso técnico mas por opção conceptual.
O processamento cerebral em detrimento do movimento físico, ao ponto de ir buscar uma personagem mitológica (Uriel) ao “Paraíso Perdido” de John Milton, em “Uriel’s Black Harp”. Num disco pautado por vértices, entre descontinuidades e descoordenações, variando entre a house sulfurosa de “Shadow from Tartarus” e o ambientalismo espaçado de “Tree of Knowledge” em faixas sucessivas, por exemplo. Ou no interior das próprias composições, as experiências ao nível da estrutura, linhas melódicas que se sobrepõem a ritmos e batidas, num aparente caos ordenado que remete para o universo paralelo de Flying Lotus.
“O que eu faço não é realmente para consumo geral, estou sempre a pensar em alguém lá fora que provavelmente não está sempre ligada à Internet, mas que tenta por si só a tentar compreender as coisas. Sabes como às vezes quando ouves um trecho de música e surge um ‘click’? Essencialmente é para isso que a minha música serve”, revela Cunningham em entrevista à “The Stool Pigeon”. Falsas epifanias que poderão resultar da audição de “Ascending”, “Marble Plexus” ou “N.E.W.”, entre outros momentos de maior inspiração contidos em “R.I.P.”, a confirmação das imensas potencialidades criativas de Actress. E ninguém dá pela sua falta no WBA.
Gustavo Sampaio